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A rede de sorveterias que tem mais lojas do que o McDonald’s e não ganha dinheiro vendendo sorvete

Em 1997, Zhang Hongchao tinha 21 anos, 3.000 yuans emprestados pela avó e uma barraca de bebidas geladas em Zhengzhou, na China.

Quase três décadas depois, a empresa que nasceu ali tem mais de 60 mil lojas no mundo, superando McDonald’s e Starbucks em número de unidades.

Em abril de 2026, a Mixue chegou ao Brasil com uma loja de 71 metros quadrados em um shopping da Avenida Paulista. Casquinha a R$ 3, sundae a R$ 10 e filas na porta desde a inauguração.

Mas a fila é a parte menos interessante da história.

A Mixue parece uma rede de sorveterias, mas construiu seu império ganhando dinheiro em outro lugar.

O negócio escondido por trás da sorveteria

No mundo das franquias, a lógica costuma ser simples: o franqueado abre a loja, vende para o consumidor e repassa à matriz uma porcentagem do faturamento.

A Mixue abriu mão justamente dessa cobrança.

Ela zerou os royalties sobre as vendas.

O franqueado fica com toda a receita e não precisa repassar uma porcentagem de cada venda.

Mas, se a Mixue não opera quase nenhuma loja e também não participa do faturamento dos franqueados, como ela ganha dinheiro?

A resposta vem antes de o primeiro cliente entrar.

Para abrir e operar uma unidade, o franqueado precisa comprar da matriz os ingredientes, as embalagens, as máquinas e praticamente tudo o que utiliza.

Mas a grande sacada não é apenas obrigá-lo a comprar, mas também fabricar aquilo que ele compra.

A Mixue produz o pó do sorvete, os xaropes, os copos, as embalagens e até parte dos equipamentos usados nas lojas.

O lucro, portanto, acontece antes da venda final.

Cada unidade nova não é apenas uma sorveteria exibindo sua marca: é um novo comprador recorrente para a fábrica.

A verticalização que faz o modelo funcionar

Em qualquer outro sistema, obrigar o franqueado a comprar tudo de um único fornecedor poderia transformá-lo em refém.

A Mixue reduz esse conflito usando escala e produção própria para oferecer preços que o lojista dificilmente conseguiria sozinho.

A empresa controla fábricas, centros logísticos e cerca de 26 armazéns na China. Com isso, determinados insumos chegam a custar entre 10% e 20% menos do que os oferecidos pelos concorrentes.

A exclusividade deixa de ser apenas uma imposição e passa a ser uma vantagem econômica.

O franqueado fica com o resultado da loja, compra insumos baratos e consegue sustentar preços agressivos. A Mixue, por sua vez, garante demanda contínua para a própria indústria.

Uma fábrica que abre dezenas de lojas por dia

É essa combinação que ajuda a explicar a velocidade da expansão.

Como os royalties foram zerados, a franquia se torna mais atraente para os operadores.

E cada novo franqueado que entra não apenas abre uma unidade: aumenta a capacidade de distribuição da fábrica sem que a Mixue precise operar a loja.

O aluguel, a equipe e o risco local ficam com o lojista. A matriz se concentra em produzir e abastecer uma rede cada vez maior.

Em 2025, a Mixue chegou a abrir cerca de 37 lojas por dia.

Quanto mais a rede cresce, mais sua indústria vende.

O balanço entrega o disfarce

Os números mostram onde está o verdadeiro negócio.

Em 2025, a Mixue faturou 33,56 bilhões de yuans, cerca de US$ 4,9 bilhões, e lucrou 5,93 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 850 milhões.

Cerca de 97,6% da receita veio da venda de produtos e equipamentos para os próprios franqueados.

A Mixue é, na prática, uma indústria atacadista gigantesca disfarçada de sorveteria.

Para o consumidor, ela vende casquinhas.

Para a rede, vende tudo o que uma sorveteria precisa para existir.

O McDonald’s faz uma versão da mesma mágica

Esse truque de faturar nos bastidores não é exclusivo da Mixue.

Boa parte do lucro do McDonald’s não vem da venda do hambúrguer. Vem de ser dono do imóvel e cobrar aluguel do próprio franqueado.

Na Mixue, o sorvete cria demanda para a fábrica. No McDonald’s, o restaurante cria demanda para o imóvel.

Dois negócios diferentes, a mesma lógica: o produto da vitrine atrai, mas o modelo captura valor nos bastidores.

A lição: seu modelo de negócio não pode ser apenas uma herança

Depois de chegar até aqui, seria fácil concluir que a lição da Mixue é fabricar os próprios insumos.

Não é.

A verticalização foi a ferramenta que ela usou. A sacada mais profunda foi perceber que não precisava ganhar dinheiro do mesmo jeito que todas as outras redes de franquia.

E esse é um ponto que quase toda empresa deixa passar.

A maioria nunca escolheu de verdade como ganhar dinheiro. Apenas herdou a lógica dominante do setor.

Franquia cobra royalties. Loja vive da margem. Prestador cobra pelo serviço.

Como todos fazem assim, o modelo parece uma característica natural do mercado, quase tão inevitável quanto o próprio produto.

A Mixue enxergou que não era.

Em vez de participar diretamente da receita de cada loja, a Mixue deslocou a captura de valor para uma etapa anterior da cadeia.

Abriu mão dos royalties e passou a ganhar abastecendo milhares de unidades.

O produto continuou o mesmo. O cliente também. O que mudou foi o desenho econômico por trás da operação.

É por isso que conhecer apenas o produto, o consumidor e os concorrentes nunca é suficiente.

Todo empresário também precisa responder a uma pergunta mais profunda: em qual etapa da cadeia o seu negócio realmente deveria ganhar dinheiro?

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