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A STANLEY QUASE MATOU O PRODUTO QUE FARIA A EMPRESA CRESCER 10 VEZES

Em 2019, a Stanley enfrentava um problema.

O Quencher, copo térmico de 1,18 litro lançado três anos antes, vendia pouco. A empresa reduziu o investimento em marketing, interrompeu a reposição e praticamente abandonou o produto no fundo do catálogo.

Quatro anos depois, esse mesmo copo ajudaria a elevar a receita estimada da Stanley de US$ 73 milhões para aproximadamente US$ 750 milhões.

O que mudou?

Quase nada no produto original. O que mudou foi o público — e, quando o cliente mudou, toda a estratégia de marketing precisou mudar também.

O PRODUTO ESTAVA SENDO OFERECIDO AO PÚBLICO ERRADO

Durante mais de um século, a Stanley construiu sua reputação vendendo garrafas resistentes para operários, militares, motoristas e campistas.

Sua tradicional garrafa verde era pesada, durável e desenvolvida para sobreviver a obras, viagens e décadas de uso.

Dentro desse universo, o Quencher parecia deslocado.

Ele tinha canudo, alça, grande capacidade e uma base afunilada para caber no porta-copos do carro. Para o público tradicional da Stanley, era apenas um copo grande demais e pouco funcional.

O baixo volume de vendas parecia provar que o produto estava errado.

Mas o problema não era necessariamente o copo.

O problema era quem estava olhando para ele.

UM NOVO PÚBLICO ENXERGOU OUTRO VALOR

Em 2017, o Quencher começou a ser recomendado pelo The Buy Guide, um blog de compras cuja audiência era 97,7% feminina, concentrada principalmente entre 35 e 44 anos.

Era um público completamente diferente daquele que a Stanley estava acostumada a atender.

Para essas consumidoras, as características do produto ganhavam outro significado:

  • A base cabia no porta-copos do carro.
  • O canudo facilitava o consumo de água durante o dia.
  • A alça tornava o transporte mais prático.
  • A grande capacidade evitava a necessidade de encher o copo várias vezes.

O que parecia exagero para um público representava conveniência para outro.

Um lote de 5.000 unidades recomendado pelo The Buy Guide esgotou em apenas cinco dias. A prova de mercado mostrou que existia demanda — mas ela estava em outro segmento.

A Stanley não precisava apenas divulgar melhor o produto. Precisava reposicioná-lo para um novo consumidor.

QUANDO O CLIENTE MUDA, O MARKETING TAMBÉM PRECISA MUDAR

Em 2020, sob a liderança de Terence Reilly, executivo com experiência na Crocs, a Stanley reposicionou o Quencher para mulheres mais jovens.

Essa mudança não ficou limitada à propaganda.

A empresa percebeu que uma mudança de público-alvo exigia a revisão completa dos 4 Ps do marketing: Produto, Preço, Praça e Promoção.

PRODUTO: DE UTENSÍLIO RESISTENTE A OBJETO DE DESEJO

O Quencher continuou sendo um copo térmico, mas sua proposta de valor mudou.

A Stanley passou a lançar:

  • Novas cores
  • Coleções temáticas
  • Edições limitadas
  • Colaborações com outras marcas
  • Lançamentos frequentes

Em poucos anos, o produto ultrapassou uma centena de variações.

A cor se tornou a principal unidade de novidade.

Antes, o cliente comprava outra garrafa quando a antiga quebrava. Agora, podia comprar uma nova porque combinava com seu estilo, fazia parte de uma coleção ou estaria disponível por tempo limitado.

O produto deixou de ser apenas funcional e passou a representar identidade, estilo e pertencimento.

A Stanley não alterou radicalmente a função central do copo. Ela ampliou o seu valor percebido.

PREÇO: O VALOR DEIXOU DE SER APENAS FUNCIONAL

Quando o Quencher era comparado apenas com outros recipientes térmicos, seu preço precisava ser justificado pela capacidade, resistência e durabilidade.

Após o reposicionamento, o consumidor passou a pagar também por:

  • Design
  • Marca
  • Exclusividade
  • Identificação com determinado estilo de vida
  • Pertencimento a uma comunidade
  • Acesso a uma edição limitada

Isso reduziu a importância da comparação puramente racional de preços.

Quando uma marca transforma um produto em símbolo de identidade, o preço deixa de ser calculado somente pela utilidade.

O valor percebido cresce porque o consumidor não está comprando apenas um copo. Está comprando aquilo que o produto comunica sobre ele.

PRAÇA: O PRODUTO PRECISAVA ESTAR ONDE O NOVO PÚBLICO ESTAVA

A mudança de consumidor também exigiu novos canais de distribuição e novos ambientes de exposição.

O Quencher passou a aparecer em:

  • Redes sociais
  • Perfis de influenciadoras
  • Academias
  • Escritórios
  • Carros
  • Lojas como Target e Starbucks
  • Ambientes ligados à moda, bem-estar e estilo de vida

A Stanley deixou de depender apenas dos espaços associados ao seu consumidor tradicional.

O produto foi retirado do universo exclusivamente utilitário e inserido nos ambientes frequentados pelo novo público.

Essa mudança de praça foi decisiva porque facilitou a compra e, ao mesmo tempo, aumentou a exposição social do produto.

Quanto mais o copo aparecia na rotina das consumidoras, mais reconhecível e desejado ele se tornava.

PROMOÇÃO: DE RESISTÊNCIA E DURABILIDADE PARA DESEJO E IDENTIDADE

A comunicação também precisou mudar.

Para o público histórico da Stanley, os principais argumentos eram resistência, durabilidade e desempenho.

Para o novo público, a promoção passou a destacar:

  • Estilo
  • Cores
  • Rotina
  • Hidratação
  • Personalidade
  • Colecionabilidade
  • Exclusividade
  • Escassez

As influenciadoras tiveram importância não apenas por divulgar o produto, mas por demonstrar como ele se encaixava na vida real das consumidoras.

O marketing deixou de apresentar somente as características do copo e passou a mostrar o contexto de uso.

A Stanley não vendeu apenas o que o produto fazia. Passou a vender o que ele representava.

O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR MUDOU PORQUE O CLIENTE MUDOU

Essa é uma das maiores lições do caso.

O consumidor tradicional da Stanley valorizava durabilidade. Seu comportamento era comprar uma garrafa e utilizá-la durante anos.

O novo público valorizava também estética, identificação, novidade e pertencimento. Por isso, seu comportamento de compra era diferente.

A compra deixou de acontecer apenas por necessidade de substituição. Passou a acontecer por desejo, coleção, lançamento ou escassez.

A Stanley conseguiu aumentar a recompra de um produto extremamente durável.

Ela não tentou obrigar o cliente antigo a comprar mais. Encontrou um novo cliente, com novas motivações, e adaptou sua estratégia a esse comportamento.

DE COPO TÉRMICO A PRODUTO DE MODA

O Quencher continuava sendo um recipiente térmico, mas passou a operar com a lógica da moda.

Produtos de moda não são apenas usados. Eles são vistos, exibidos e associados à identidade de quem os utiliza.

Cada nova cor aparecia em carros, academias, escritórios e redes sociais. Quanto mais o produto era visto, mais se fortalecia como símbolo social.

O TikTok acelerou esse fenômeno. Tendências como o WaterTok transformaram hidratação em conteúdo, enquanto a Stanley transformava lançamentos em eventos.

Em julho de 2023, uma edição inspirada na cantora Lainey Wilson esgotou em 11 minutos.

No início de 2024, um modelo rosa lançado com Starbucks e Target gerou filas, limitação de unidades por consumidor e revenda por valores muito superiores ao preço original.

A Stanley transformou um produto feito para durar anos em uma plataforma permanente de lançamentos.

AS VANTAGENS COMPETITIVAS CONSTRUÍDAS

A Stanley não cresceu somente porque encontrou um novo público. Ela transformou essa descoberta em vantagens competitivas:

1. Posicionamento claro

O Quencher passou a ocupar um espaço entre funcionalidade, moda e estilo de vida.

2. Produto reconhecível

O formato, a alça, o tamanho e o canudo tornaram o produto facilmente identificado.

3. Renovação com baixo nível de complexidade

A empresa conseguiu criar novidade principalmente por meio de cores, coleções e parcerias, sem precisar reinventar completamente o produto.

4. Escassez e urgência

Edições limitadas fizeram com que cada lançamento tivesse potencial para gerar uma nova compra.

5. Distribuição conectada ao público

O produto passou a ser vendido e divulgado nos lugares em que o novo consumidor já estava presente.

6. Marketing feito pelos próprios clientes

Cada pessoa utilizando o Quencher em público aumentava sua exposição e funcionava como uma forma de prova social.

7. Aumento da recorrência

A Stanley criou novos motivos para o consumidor comprar novamente, mesmo sem precisar substituir o produto anterior.

O RESULTADO FINANCEIRO

A receita estimada da Stanley cresceu mais de dez vezes em quatro anos:

  • 2019: US$ 73 milhões
  • 2020: US$ 94 milhões
  • 2021: US$ 194 milhões
  • 2022: US$ 402 milhões
  • 2023: US$ 750 milhões

A Stanley é uma empresa fechada. Portanto, esses valores foram divulgados pela imprensa e não são provenientes de balanços públicos auditados.

O Quencher tornou-se o principal motor dessa expansão e chegou a representar cerca de 70% da receita online da marca, segundo estimativas da empresa de inteligência de mercado Particl.

A PRINCIPAL LIÇÃO DE NEGÓCIO

A grande virada da Stanley não aconteceu porque a empresa reinventou completamente o copo.

Ela aconteceu porque a marca compreendeu que o mesmo produto poderia ter valores completamente diferentes para públicos diferentes.

Ao mudar o cliente, mudou-se também:

  • O produto, que ganhou cores, coleções e edições limitadas.
  • O preço, sustentado por maior valor percebido.
  • A praça, levando o produto aos ambientes frequentados pelo novo público.
  • A promoção, que passou a vender identidade, estilo e pertencimento.

Isso é marketing raiz.

Não basta anunciar mais ou produzir novos criativos. É necessário compreender profundamente quem é o cliente, como ele se comporta, o que valoriza e por que compra.

REFLEXÕES PARA O EMPREENDEDOR

Antes de retirar uma oferta do mercado, vale perguntar:

  • O produto está realmente errado ou está diante do público errado?
  • Quais características são pouco valorizadas pelo meu cliente atual, mas poderiam ser decisivas para outro segmento?
  • Meu posicionamento acompanha o comportamento do consumidor?
  • Meu produto está disponível nos lugares em que o cliente realmente compra?
  • Minha comunicação apresenta apenas funcionalidades ou também mostra valor, identidade e transformação?
  • Estou tentando modificar um produto que talvez precise apenas de um novo posicionamento?
  • Meus 4 Ps do marketing estão alinhados ao mesmo público?

A Stanley quase deixou o Quencher desaparecer porque avaliava o produto pelo olhar do cliente que sempre havia atendido.

A empresa cresceu quando entendeu que mudar o público-alvo não significa apenas trocar a pessoa que aparece na propaganda. Significa reorganizar toda a estratégia de marketing ao redor de um novo comportamento de consumo.

A reflexão final é simples:

Antes de abandonar um produto, descubra se o problema está realmente nele — ou se você está tentando vendê-lo para quem menos valoriza aquilo que ele entrega.

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